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Pra sempre. Nos precipícios dos princípios reais; ruiu a realeza. Póstumo principado, arrancado da glória genocida do proletariado oprimido em seio materno, febril recinto fabril. Exauriu-me às merdas do mundo.
— Caio Lobo
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Pois, com toda a colérica tristeza do mundo, não te surpreendes o sorriso ingênuo de minha, nossas almas reluzentes aos variados tons libertinos em expansão contínua aos universos longínquos? Mesmo que não tão íntima às tempestuosas inconstâncias furiosas, por aproximar-se em compatibilidade sutil aos remorsos da melancolia sangrenta dos cinzas nebulosos celestes. Aos corações enegrecidos pela impossibilidade de algum outro ângulo diferenciado, mesmo pelos corriqueiros costumes que os rotulam de maneira tão supérflua e visivelmente pobre. Pois tão vibrante é em seu próprio espaço aveludado pelas cores de seu monocromatismo. Variados em amplo e ermo ambiente, ambientado aos repousos ociosos de nossa consciência, tranquila em pacíficos momentos de plenitude espiritual; física aos concretismos cintilantes de nossas abstrações divagantes. Reflexo belo de nossa momentânea eternidade singular. Eterna transitoriedade.
— Caio Lobo
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É o pau, é a pedra, é o fim do caminho. É um resto de toco, é um pouco sozinho. É um caco de vidro, é a vida, é o sol. É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol. É peroba do campo, é o nó da madeira. Caingá candeia, é o matinta-pereira. É madeira de vento, tombo da ribanceira. É o mistério profundo, é o queira ou não queira. É o vento ventando, é o fim da ladeira. É a viga, é o vão, festa da cumeeira. É a chuva chovendo, é conversa ribeira. Das águas de março, é o fim da canseira. É o pé, é o chão, é a marcha estradeira. Passarinho na mão, pedra de atiradeira. É uma ave no céu, é uma ave no chão. É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão. É o fundo do poço, é o fim do caminho. No rosto um desgosto, é um pouco sozinho. É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto. É um pingo pingando, é um tremendo desconto. É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando. É a luz da manhã, é o tijolo chegando. É a lenha, é o dia, é o fim da picada. É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada. É o projeto da casa, é o corpo na cama. É o carro enguiçado, é a lama, é a lama. É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã. É um resto de mato na luz da manhã. São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração. É uma cobra, é um pau, é João, é José. É um espinho na mão, é um corte no pé. São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração. É pau, é pedra, é o fim do caminho. É um resto de toco, é um pouco sozinho. É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã. É um belo horizonte, é uma febre terçã. São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração.
— Elis Regina
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Jamais me senti solitário nas margens do Sena. Com tantas árvores na cidade podia-se ver a primavera chegando dia a dia, até que uma noite de vento quente a traria de repente na manhã seguinte. Pesadas chuvas frias poderiam retardá-la às vezes e temíamos que nunca mais chegasse, fazendo-nos perder, assim, uma estação em nossa vida. Esse era o único tempo realmente triste em Paris porque era fora do natural. A gente já espera ficar triste no outono. Uma parte da gente morre cada ano, quando as folhas caem das árvores e seus galhos ficam nus batidos pelo vento e a luz fria, invernal. Mas sabíamos que haveria sempre outra primavera, assim como sabíamos que o rio fluiria de novo depois de ter estado congelado. Quando as chuvas frias continuavam durante longo tempo e acabavam matando a primavera, era como se um jovem tivesse morrido à toa. Naqueles dias, porém, a primavera sempre triunfava, mas dava-nos um frio na espinha pensar que faltara pouco para que ela tivesse falhado.
— Hemingway
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Então, por um instante, tive a mais tremenda sensação de pena dos seres humanos, sejam eles o que forem, o rosto, a boca cheia de dor, personalidades, tentativas de ser alegres, pequenas petulâncias, sensação de perda, piadinhas chatas e vazias que logo seriam esquecidas: ah, para quê? Eu sabia que o som do silêncio estava em todo lugar e que portanto tudo em todo lugar era silêncio. Suponha que de repente acordássemos e víssemos que o que achamos ser isto ou aquilo na verdade não é nada disto nem daquilo? Afinal, será que somos anjos caídos que não quiseram acreditar que o nada é nada e portanto nascemos para perder aqueles que amamos e os amigos queridos um por um e afinal nossa própria vida, para ter essa comprovação?
— Jack Kerouac - Vagabundos Iluminados
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A line is a fuse
that’s lit.
The line smolders,
the rhyme explodes—
and by a stanza
a city
is blown to bits.
— Vladimir Mayakovsky
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De manhã, acordei chorando. Ultimamente, tem sido sempre assim. Já nem sei se meu pranto é de tristeza. Acho que meus sentimentos se foram com as lágrimas.
— Kyoichi Katayama - Um Grito de Amor do Centro do Mundo
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Era a última coisa que ia ficando de um passado cujo aniquilamento não se consumava, porque continuava se aniquilando indefinidamente, consumindo-se dentro de si mesmo, se acabando a cada minuto mas sem acabar de se acabar nunca.
— Gabriel García Marquez, em Cem Anos de Solidão
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“A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.
Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio…
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.
— Drummond, “A Noite Dissolve os Homens”

Salvador Dali - Atavistic Vestiges After the Rain
5 months ago with 95 notes

Afghan Girl by Steve McCurry.
Sharbat Gula (born ca. 1972) is an Afghan woman who was the subject of a famous photograph by journalist Steve McCurry. Gula was living as a refugee in Pakistan during the time of the Soviet occupation of Afghanistan when she was photographed. The image brought her recognition when it was featured on the cover of the June 1985 issue of National Geographic Magazine at a time when she was approximately 12 years old.
5 months ago with 495 notes
Anonymous:
As pessoas poderiam se apaixonar por você,apenas pelo o que você escreve
Algum outro anônimo me disse algo semelhante em tempos anteriores. Não creio que seja o mesmo, mas não tenho muito o que dizer. Acho improvável, mas pouco posso dizer, pois não me imagino em situação parecida. Mas bem, são interioridades sujeitas mesmo a interpretação e subjetivas em tal aspecto, não sei.